O avanço da tecnologia digital e a consequente popularização das imagens têm levado as forças policiais a adotarem o reconhecimento fotográfico como uma ferramenta central para a emissão de mandados de prisão. Essa estratégia, idealizada para solucionar a lentidão na localização e captura de foragidos, introduz um grave novo problema: o erro judiciário com consequências devastadoras para pessoas inocentes. Em alguns casos, são apresentadas a testemunhas fotos de suspeitos com o intuito de identificá-los. Além do processo realizado por humanos, aumentaram o número de estados que passaram a realizar reconhecimento facial por máquina. São Paulo desde outubro de 2025 já conta com um sistema, o smart sampa, com mais de 20 mil câmeras para essa função. A Bahia conta com o maior sistema desse tipo no país que entre 2018 e 2022 recebeu R$ 683 milhões de investimento. Contudo relatório recente do Panóptico, projeto do Centro de Estudo de Segurança e Cidadania que monitora o us...
Postagens
Cláudio Junior Rodrigues de Oliveira Acusado de roubo qualificado, Cláudio foi absolvido pela justiça 13 vezes. Sua prisão foi baseada em reconhecimento fotográfico a partir de um álbum de fotos de suspeitos - ao vê-lo presencialmente, a vítima afirmou que não o reconhecia como o autor do crime. O jovem chegou a cumprir a sentença de cinco anos e quatro meses em regime semiaberto. Preso em 2016, saiu da cadeia em 2018 e foi preso novamente em 2021, por um período de dois meses. Em uma entrevista, Cláudio revelou que desenvolveu o hábito de tirar "selfies" várias vezes por dia - uma tentativa de criar álibis para que ele não fosse, de novo, preso injustamente. "Fico receoso de acontecer de novo. Se acontece um assalto em um dia comum, o que eu faço para comprovar que não era eu? Não tem como eu me filmar 24 horas por dia" - Claudio, g1, 2022
Yago Corrêa de Souza Em fevereiro de 2022, Yago tinha 21 anos quando foi preso por envolvimento com o tráfico de drogas enquanto comprava pão na Favela do Jacarezinho. De acordo com testemunhas, por conta de um tumulto com policiais empunhando fuzis na Rua Amaro Rangel - uma das vias na parte baixa da favela - Yago correu, junto com outras pessoas, para se proteger. No dia da prisão, na delegacia, policiais disseram para a irmã de Yago que nada havia sido encontrado com o jovem. E que de fato ele só teria sido preso porque correu. No mês seguinte, a justiça ordenou o arquivamento da investigação e a exclusão das fotografias de Yago Correa de Souza do sistema das delegacias policiais. "Eu não sou bandido, não sou nada, sou morador, só. Eles queriam me matar. Falaram para eu sentar para me matar. Eu corri porque eu tive que correr, não vou ficar" - Yago Corrêa de Souza, Brasil de Fato, 2022
Alberto Meyrelles Santa Anna Junior Em 2021, Alberto também passou 20 dias na cadeia após ser erroneamente identificado como autor de um assalto cometido em 2019. A foto 3x4 de sua carteira de habilitação, utilizada para acusá-lo, havia sido perdida no mesmo dia quando, ele próprio foi vítima de um roubo. Conseguiu responder o processo em liberdade - após seis tentativas de pedido de soltura - e no ano seguinte, foi finalmente absolvido por falta de provas. Durante todo o processo, Alberto, que trabalha como estivador e supervisor de uma empresa na zona portuária no Rio, foi proibido de sair do município do Rio e era obrigado à se apresentar em sede judicial uma vez por mês. "Receber essa notícia foi ótima, mas demora muito essa justiça que nós temos. Eles [a Polícia Civil] não procuraram saber o que aconteceu, foram direto me acusando e me prenderam. Não procuraram saber o que eu fazia" - Alberto Meyrelles Santa Anna Junior, Jornal O Dia, 2022
Raoni Lazaro Barbosa O cientista de dados Raoni Lazaro Rocha Barbosa estava dormindo em sua casa em Campo Grande, quando a polícia chegou para prendê-lo. Ainda de pijama, foi levado para a Penitenciária de Benfica, onde foi mantido por mais de 20 dias. Acusado de participar de uma milícia que ameaçava e extorquia moradores da cidade de Duque de Caxias - 40 Km de sua residência - Raoni teve sua prisão baseada em um reconhecimento por uma foto desfocada. Nunca houve uma identificação pessoal ou sequer uma comparação das imagens dos dois indivíduos - o homem procurado era outro homem negro chamado Raony, esse, com “y”. “A única semelhança que a gente tem, além de o nome ser parecido, é o fato de sermos negros. A única.” - Raoni Lazaro Barbosa, Revista Piauí, 2021.